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ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, set./dez. 2018. Seção Entrevistas.
http://periodicos.utfpr.edu.br/actio
Pesquisa qualitativa e a abordagem
fenomenológica: o percurso da professora
pesquisadora Maria Aparecida Viggiani
Bicudo
Qualitative research and the
phenomenological approach: the course of
the researcher Maria Aparecida Viggiani
Bicudo
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
Manuelle P. da Costa Simeão
manuellepereiradacostasimeao@gmail.com
orcid.org/0000-0002-4140-3573
Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR), Curitiba, Paraná, Brasil
Luciane Ferreira Mocrosky
mocrosky@gmail.com
orcid.org/0000-0002-8578-1496
Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR), Curitiba, Paraná, Brasil
Maria Aparecida Viggiani Bicudo
Fonte: arquivo pessoal da entrevistada.
RESUMO
O presente texto trata de uma entrevista cedida pela professora Dra. Maria Aparecida
Viggiani Bicudo durante o evento “Jornadas da Educação em Ciências e Matemática”,
realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Formação Científica, Educacional e
Tecnológica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Na entrevista a professora
descreve e discute a sua trajetória acadêmica, bem como a sua relação com a pesquisa
qualitativa na abordagem fenomenológica em Educação Matemática.
PALAVRAS-CHAVE: Maria A. V. Bicudo. Pesquisa Qualitativa. Postura fenomenológica.
Educação. Educação Matemática.
KEYWORDS: Maria A. V. Bicudo. Qualitative research. Phenomenological posture.
Education. Mathematical Education.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
APRESENTAÇÃO
Aconteceu na Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR, em
Curitiba, nos dias 23 e 24 de novembro no ano de 2017 a primeira “Jornadas da
Educação em Ciências e Matemática”, organizada pelo Programa de Pós-
Graduação em Formação Científica, Educacional e Tecnológica (PPGFCET). O
evento reuniu educadores de renome da Educação em Ensino de Ciências e
Matemática. Uma das palestrantes foi a professora Doutora Maria Aparecida
Viggiani Bicudo, que se dispôs a conceder uma entrevista para a revista do
Programa.
Maria Aparecida Viggiani Bicudo é formada em Pedagogia pela Universidade
de São Paulo (1963), é Mestre em Educação Orientação Educacional pela
Universidade de o Paulo (1964) e doutora em Ciências pela Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (1973). Foi livre-docente em Filosofia da
Educação na Unesp Araraquara em 1978, Professora Titular em Filosofia da
Educação na Unesp - Rio Claro em 1988 e Presidente da Sociedade de Estudos e
Pesquisa Qualitativos
1
.
A professora entrevistada trabalha desde os anos de 1980 com pesquisa
qualitativa na abordagem fenomenológica
2
em Educação e Ensino de Matemática.
Nesta entrevista ela conta parte de sua trajetória, esclarecendo aspectos
importantes desse modo de pesquisar, de conduzir ações e de agir perante a vida.
A entrevista foi realizada com a intenção de aproximar a perspectiva
fenomenológica dos leitores e pesquisadores. Posto que a professora Maria A. V.
Bicudo foi uma das precursoras a seguir essa abordagem nas pesquisas em
educação matemática, a entrevista busca trazer a público parte da experiência da
autora sobre a fenomenologia e suas possibilidades para a área.
REFERÊNCIAS
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Mahfoud. Bauru, SP: Edusc, 2006.
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https://repositorio.unesp.br/handle/11449/148797. Acesso: 16 jun. 2018.
BICUDO, M. A. V. Um ensaio sobre concepções a sustentarem sua prática
pedagógica e produção de conhecimento (da educação matemática). In: FLORES,
C.R.; CASSIANI, S. (org.). Tendências contemporâneas nas pesquisas em
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1ªed.campinas: mercado das letras, 2013, v. 01, p. 17-40.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
BICUDO, M. A. V. A contribuição da fenomenologia à educação. In: BICUDO, M.
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BICUDO, M. A. V. A Possibilidade de trabalhar a educação matemática na ótica da
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EDITORA UNICAMP. Avaliação de quarta geração Sobre o autor. Disponível em:
<http://www.editoraunicamp.com.br/produto_detalhe.asp?id=969>. Acesso em:
05 maio 2018.
GOMES, Marcos. Martin Buber, um teólogo que prega o diálogo. Revista Nova
Escola, 1 set. 2009. Disponível em:
<https://novaescola.org.br/conteudo/1938/martin-buber-um-teologo-que-
prega-o-dialogo>. Acesso em: 20 mar. 2018.
MAX SCHELER Biografia. Porto Editora. Disponível em:
<https://www.portoeditora.pt/autor/max-scheler>. Acesso em: 20 mar. 2018.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
ENTREVISTA
NOS CAMINHOS PERCORRIDOS COMO PESQUISADORA, EM QUE MOMENTO
ACONTECEU O ENCONTRO COM A PESQUISA QUALITATIVA NA ABORDAGEM
FENOMENOLÓGICA? A PROFESSORA JÁ REALIZOU PESQUISAS COM
ABORDAGENS METODOLÓGICAS DIFERENTES?
Na graduação, entre 1960 e 1963, cursei Pedagogia na Universidade de São
Paulo, quando o currículo era diferente do atual. Nesse curso estudávamos um ano
de Introdução à Matemática, cujo nome era, se não me engano, Elementos da
Matemática” e dois anos de estatística. Assim, nesses dois anos estudando
estatística, nós aprendíamos muito sobre a pesquisa quantitativa. Trabalhávamos
com fórmulas estatísticas para analisar os dados. Era colocada com força a questão
da hipótese e respectiva comprovação, do cálculo do Χ² - Qui-Quadrado, etc. Para
a Educação era importante compreender como calcular uma amostra significativa,
por exemplo.
Já àquela época, eu não me sentia confortável com o “quantitativo”, porque,
como eu era da pedagogia, trabalhava com a questão do humano, com a dimensão
filosófica e psicológica da pessoa. Para mim, destacavam-se as questões da
aprendizagem e da ética e eu ficava sempre me questionando a respeito dos
testes, por exemplo, testes de inteligência, teste de personalidade, teste de
alfabetização, etc. Então eu me perguntava, ainda que silenciosamente, sem
discutir: como que eu poderia ter certeza que esses testes estavam medindo aquilo
que estava sendo afirmado que estavam medindo? Isso não estava claro para mim;
eu não me sentia confortável.
Quando eu terminei o curso de Pedagogia, no último ano nós pudemos
cursar duas optativas. Eu fiz uma de filosofia e outra de orientação educacional
com uma professora chamada Maria José Garcia Werebe, que já faleceu, e ela foi
apresentando, àquela época, a teoria do “Moreno”, Jacob Moreno
3
, que é sobre
psicodrama e sociodrama. Moreno tem todo um pensar a respeito de formação,
de constituição de grupos sociais e de como se pode organizar grupos sociais. A
partir do que poderiam ser organizados? A partir do desejo das pessoas, do que as
aproxima. Nesse curso, tanto ao estudar “Moreno”, quanto ao serem
apresentadas e debatidas outras questões que ela foi trazendo, fui sendo
despertada para pensar questões de caráter quantitativo, postas pela estatística,
pelos testes de personalidade, de inteligência, por exemplo.
Ao terminar o curso de Pedagogia, eu e algumas colegas fizemos um curso de
pós-graduação coordenado pela professora Maria José Garcia Werebe, de
orientação educacional. Nesse curso ela nos trouxe toda a leitura do Carl Rogers
4
que, naquela época, não tinha tradução para o português. Então, comecei a
estudar Carl Rogers e a questão do “tornar-se pessoa”. Entendi que nessa visão já
não cabia uma pesquisa quantitativa. Entretanto, ainda não falávamos em
pesquisa qualitativa. Fiz a pós-graduação com ela, que seria em nível de mestrado,
e depois eu fiz o doutorado com o professor Joel Martins
5
. Minha tese foi teórica.
Estudei toda a teoria do Rogers e, em filosofia, eu estudei o “Buber”
6
.
Foi ficando
claro, para mim, que não daria, naquela visão, para realizar pesquisa de caráter
quantitativo.
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Depois que fiz o doutorado eu fui para os EUA. Na academia ainda não se
falava em pesquisa qualitativa, embora ela fosse realizada. Voltei-me para a
questão da ética e realizei estudo sobre valores. Nessa época estudei Max Scheler
7
,
a questão da teoria de valores, a questão ética em educação.
Ao voltar para o Brasil, como eu já havia obtido o título de doutora, direcionei
os estudos realizados durante o estágio nos Estados Unidos para a elaboração de
uma tese a ser apresentada como exigência, parcial, em concurso para receber o
título de Livre-Docente. Comecei, também, a frequentar o grupo de estudos e de
orientações da PUC-SP coordenado pelo professor Joel Martins, que havia me
orientado. Estudamos Heidegger
8
, depois Husserl
9
, Merleau-Ponty
10
. O Joel, que ia
muito para os EUA, trabalhava com Amedeo Giorgi”
11
. Na década de 80 ele
começa a falar em pesquisa qualitativa e, com Amedeo Giorgi, desenvolve um
modo de fazer pesquisa qualitativa fenomenológica. Um pouco depois disso,
aparece aquele primeiro livro da Marli André
12
e da Menga Ludke
13
, que tem o
nome “A pesquisa qualitativa”. Elas falam de pesquisa-ação e apresentam
modalidades de pesquisa qualitativas, sem aprofundar as questões filosóficas que
as subjazem.
Com o Joel, estávamos estudando Heidegger, Husserl e Merleau-Ponty de
modo bastante aprofundado, com a intenção de compreender a questão da
filosofia da ciência. As visões de ciência, que trazem consigo a de realidade e de
conhecimento, é que estão na base da pesquisa ser quantitativa ou qualitativa e,
conforme o que se busca investigar, quali-quanti. Joel orientava teses e
dissertações cujas pesquisas eram realizadas na modalidade qualitativa, na visão
fenomenológica. Quando ele orientava, eu ficava junto em grupos de orientação,
estudando e aprendendo com suas orientações. No final da década de 80 saiu o
primeiro livro dele comigo. Ele, quando dava aula, escrevia “notas de aula” e as
escrevia para cada aula, para cada curso. Nessas notas trazia textos dos autores
que se estava estudando no momento. Em cursos por ele ministrados na UNICAMP
e na PUC-SP, sobre pesquisa qualitativa, foram produzidas muitas notas de aula.
Eram esquemáticas e ele articulava os itens dessas notas em aula, expondo e
discutindo as questões. Não havia um discurso que articulasse, nessas notas
escritas, um item ao outro; faziam sentido apenas para nós que ali estávamos e
que estudávamos os autores indicados. Propus a ele escrever um livro com base
nessas notas. Com o seu consentimento eu as analisei, organizei em tópicos, que
se constituíram em capítulos, e redigi o livro “Pesquisa Qualitativa em Psicologia –
abordagem fenomenológica”. Esse livro evidencia modos de investigar
qualitativamente, tendo como fundo os textos de Husserl, em educação, na
psicologia e nas ciências sociais. Focamos as pesquisas nessas áreas e trazer a
fenomenologia husserliana para essa realidade demandou muito esforço para
saber fazer e fazer com rigor, uma vez que não era qualquer pesquisa, era uma
pesquisa acadêmica. E foi então que se deu esse encontro para uma criação do
modo de fazer a pesquisa qualitativa, numa vertente fenomenológica. Nessa
época, entre 1980 e 1990, se não me engano, foram publicados outros livros,
principalmente nos Estados Unidos. Dentre eles está o de “Lincoln e Guba
14
”.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
COMO A EDUCAÇÃO MATEMÁTICA SE TORNOU O FOCO DE SEUS ESTUDOS?
Com relação à Matemática, foi uma questão casual, “aconteceu”! Eu sou da
Unesp, que não era universidade. Inicialmente, foram reunidos os Institutos
Isolados de Ensino Superior do Estado de São Paulo, que eram cursos de graduação
de boa qualidade, públicos e gratuitos. Eram isolados no sentido de cada um ter o
seu núcleo administrativo e a sua organização. Em 1976 foi criada a Unesp,
reunindo esses institutos em uma universidade. No processo dessa criação muitos
cursos foram fechados, por exemplo, Pedagogia em Rio Claro, onde eu trabalhava.
Meu ex-marido era professor de Matemática, o curso de Matemática existia
em Rio Claro e permaneceu. Como o curso de pedagogia foi fechado, eu fui
transferida para Araraquara. que, em Araraquara, tinham fechado o curso de
Matemática. Inicialmente, tentei permanecer naquele campus, que fica a uns
100 km de Rio Claro. Trabalhei durante dois/três anos, mas não deu certo,
porque eu tinha minhas filhas com idade de 11 e 12 anos, idade esta que demanda
muito cuidado. Não dava para nós dois morarmos em Araraquara, um sempre iria
ter que viajar. Assim como eu, muita gente da universidade se encontrava nessa
situação e estava explicitando descontentamento pelas dificuldades encontradas.
Como resultado de toda essa manifestação fomos “retransferidos” para os
campus
15
de onde éramos provenientes. Eu sempre dei aula de filosofia e quando
eu fui retransferida para Rio Claro, eu era livre-docente e tinha uma formação
bastante avançada na vida acadêmica. Como não havia o Departamento de
Educação, fui colocada no Departamento de Matemática, onde não havia
disciplinas de filosofia, nem de educação. é que tem o “acontecimento”; assim
se deu meu encontro com a Matemática.
Como eu vim para o Departamento de Matemática e no campus haviam
disciplinas da área da Educação para as Licenciaturas, ou seja, as quatros
determinadas pela legislação Didática, Estrutura e Funcionamento e as duas
Psicologias, da Aprendizagem e do Desenvolvimento , e eu sendo da Filosofia,
cuja disciplina não existia, ficaria sem trabalho. O Departamento De Matemática
era orientado por uma visão muito aberta; preocupava-se com compreender a
Matemática como ciência, com compreender o pensar matemático. Os seus
professores trabalhavam muito com o que denominavam “Fundamentos da
Matemática” e me acolheram, então comecei a dar um curso optativo em Filosofia
da Educação para a Matemática, um curso em Filosofia da Ciência para Física e
outro em Filosofia da Matemática, abordando questões de epistemologia para
quem fazia licenciatura. o havia pós-graduação. Como eu continuava muita ativa
e presente no grupo do professor Joel na PUC de São Paulo, vivenciando as
questões de filosofia, de estrutura e de funcionamento da s-graduação no Brasil,
passei a ficar atenta à força que existia no Departamento De Matemática já
direcionada para a questão de fundamentos, para a questão da história e para a
questão do ensino de Matemática. Então comecei a conversar sobre a
possibilidade de pensarmos em um curso de pós-graduação stricto sensu. E o
Joel foi muito importante, porque ele me deu toda a orientação sobre a legislação
em vigor, sobre as questões administrativas, sobre o modo de estruturar o projeto
a ser apresentado. Os professores da Matemática foram conversando comigo e me
mostrando ideias sobre o pensar e o fazer matemático. Do mesmo modo,
conversava com as professoras da Educação que tinham também sido
retransferidas, mas que estavam em outros departamentos no campus de Rio
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 3, p. 236-252, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
Claro e que eram doutoras (uma delas era livre-docente). Fomos nos reunindo
para organizar e propor um projeto de criação de um curso de pós-graduação. Foi
então surgiu a Educação Matemática. Nós começamos a pensar nesse curso no fim
de 1982 junto aos professores da Unicamp. A primeira turma começou a cursar o
programa em março de 1984. Ainda hoje estou nesse programa; agora, como
voluntária e atualmente com cinco orientandos.
NA FENOMENOLOGIA, É POSSÍVEL ESTABELECER RELAÇÕES COM OUTRAS
ABORDAGENS DE PESQUISA, COMO POR EXEMPLO, A PESQUISA-ÃO?
Se é possível? É possível, mas, temos que pensar sobre o que você está
perguntando: qual a sua interrogação? O que você quer saber?
É preciso esclarecer o que é importante para a fenomenologia, o que é nuclear
na visão fenomenológica. Penso que devemos compreender o sentido de
fenômeno, o que se quer dizer quando se fala no fenômeno, na fenomenologia. O
fenômeno é o que se mostra a quem intencionalmente o olha. Ele se mostra no
encontro entre o ver e o visto (noesis-noema), entre o que se mostra e ao olhar de
quem olha de modo intencional
16
. Esse encontro se num instante, que é o agora,
em que o fenômeno se mostra no ato de perceber (percepção). Então,
fenomenologicamente, o que nós buscamos? Compreender o fenômeno que se
mostra. Porém, o que a mim se mostra é o que eu percebo, não é o objeto em si.
É o que percebo “agora” e todo agora se esvai na temporalidade. E,
fenomenologicamente, como compreendemos o tempo? O tempo vai
escorregando do futuro, do ainda não foi, para o agora, que está acontecendo, e
para o foi, que aconteceu. A percepção acontece no agora e esse agora é um
“átimo”, é um instante. Para eu falar disso que aconteceu, posso falar em
termos do acontecido, do já foi; então eu tenho que descrever como eu percebi o
fenômeno. Daí a descrição se torna importante. E essa descrição, de quem é? É a
descrição daquele sujeito que percebe, que vivencia o fenômeno. Por exemplo,
quem é que pode descrever a aprendizagem de Matemática? O ser que aprende
Matemática. Esse é o foco, é a descrição da vivência que nós vamos buscando
compreender, ou seja, do que está sendo dito a respeito do fenômeno
interrogado. Assim, se eu pergunto: O que é isso, a aprendizagem da Matemática?
Fenomenologicamente, eu não vou ter uma resposta, em termos de uma
definição: “É tal coisa”. Mas eu vou explicitar uma compreensão dessa
aprendizagem de Matemática, em termos da análise de uma descrição de
situações em que essa aprendizagem se deu e de como ela se deu!
Se você estiver trabalhando com pesquisa-ação, você pode descrever o
percebido. Mas a pesquisa-ação é o desenrolar de uma intervenção planejada em
uma situação de ensino e aprendizagem, por exemplo. Começa-se a pesquisa
tendo em vista uma determinada proposta delineada como busca por
compreender uma pergunta. Ao estar junto das pessoas que estão no movimento
do processo da ação, a pesquisa também avança. O pesquisador também está no
movimento da ação. Tem-se um par: “pesquisa-ação”; a ação do que acontece e a
pesquisa como movimento em que se vai compreendendo o que acontece. No caso
de o pesquisador ser o professor que ensina e que está atento à ação
desencadeada pelo projeto interventivo, ele próprio também se põe a