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Percepções de estudantes de um curso de
licenciatura em física sobre a leitura e a
escrita no ensino e na aprendizagem de
física
RESUMO
Joselaine Setlik
joselainesw@gmail.com
orcid.org/0000-0003-3242-2550
Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), Florianópolis, Santa Catarina,
Brasil
Ivanilda Higa
ivanilda@ufpr.br
orcid.org/0000-0002-7277-3198
Universidade Federal do Paraná (UFPR),
Curitiba, Paraná, Brasil
Este trabalho problematiza percepções de licenciandos em Física sobre a leitura e escrita de
textos no ensino e na aprendizagem de física. Estudos têm indicado dificuldades que
professores enfrentam ao utilizar esses processos, que podem estar ligadas com a não
usualidade dessas práticas na própria formação inicial desses profissionais. São analisadas
respostas de oito estudantes a um questionário organizado em três partes: a primeira visa
conhecer o perfil do estudante, a segunda suas concepções sobre o uso e importância da
leitura e da escrita na sua aprendizagem de conceitos físicos e formação profissional, e a
terceira, suas percepções sobre essas práticas no Ensino Médio (colocando-se como futuro
professor). As reflexões são construídas tendo em vista a teoria de Vigotski sobre leitura e
escrita, assumindo-as como práticas socioculturais. Os resultados indicam que para estes
futuros professores a leitura é considerada importante para a aprendizagem,
principalmente pela compreensão conceitual que ela proporciona. A escrita de textos é vista
como mais um recurso e, principalmente no Ensino Superior, associada à memorização de
informações. O trabalho alerta para a necessidade de ampliar o olhar desses futuros
professores sobre a leitura e a escrita através de discussões da temática durante sua
formação inicial, além de incentivar o seu uso na aprendizagem de física, como alunos que
são da Licenciatura.
PALAVRAS-CHAVE: Leitura. Escrita. Física. Formação de professores de física. Licenciatura.
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INTRODUÇÃO
A partir de Vigotski (2008) compreende-se a leitura como um processo
dinâmico, ou seja, na interação do leitor com o texto é que as palavras assumem
sentidos, podendo um texto escrito assumir vários sentidos dependendo de quem
o interpreta e do contexto histórico-social. Segundo o mesmo autor, a escrita, por
sua vez, exige planejamento e a criação de suportes expressivos e situacionais para
a compreensão de um leitor. Nesse sentido, a escrita requer uma sistematização e
organização do pensamento, que é constituído por palavras.
A leitura e a escrita podem ser compreendidas como processos importantes
na construção do conhecimento, também relacionado à física, uma vez que requer
uma ação ativa e consciente do indivíduo, refletindo sobre seu pensamento,
tornando-o mais definido e concreto. Assim, a leitura e a escrita nas aulas de física
podem ser mais do que instrumentos de transmissão de informações, ambas
podem ser potenciais na construção de conhecimentos relacionados à ciência.
Pesquisas da área têm indicado que professores relatam dificuldades na
utilização da leitura (para além das buscas de informações e muitas vezes de forma
complementar) e da escrita (para além da cópia de conceitos físicos do quadro ou
livro didático) em aulas de física (ASSIS; CARVALHO, 2008; ANDRADE; MARTINS,
2004).
Ao longo da história, algumas práticas e conteúdos se constituem como
pertencentes a determinadas disciplinas escolares, existindo, portanto, uma
cultura escolar (FORQUIN, 1993) que influencia as ações dos sujeitos pertencentes
a esse espaço. Assim, apesar de possível e necessário, não é fácil propor formas de
utilização da leitura e da escrita no ensino de física, pois, em geral, tanto no Ensino
Médio quanto no Superior, essas o são consideradas práticas pertencentes à
cultura da disciplina, na qual predominam a resolução de problemas e exercícios.
Durante o processo de formação inicial de professores de física também é
importante que se façam discussões sobre a importância dos processos de leitura
e escrita para ensinar e aprender física na escola. Essas discussões, quando
realizadas, acontecem em geral nas disciplinas pedagógicas dos cursos de
licenciatura. É necessário dar atenção e refletir sobre esse momento de formação
dos licenciados para que ocorram mudanças na sala de aula na Educação Básica, e
até mesmo no Ensino Superior, na forma de conceber e utilizar a leitura e a
produção escrita.
Para além de discussões nas disciplinas de cunho pedagógico, será que a forma
que o aluno vivencia o aprender com as práticas de leitura e de escrita pode
influenciar no modo como ele, como futuro professor, vai desenvolver essas
práticas com seus alunos? Se ele quase não usa a leitura, talvez isso possa limitá-
lo em propor essa prática para ensinar.
Sob essa perspectiva, qual é o papel que estudantes de graduação atribuem a
essas práticas em sua própria aprendizagem e para ensinar física? Existem relações
entre o papel que ele atribui à leitura e escrita em sua própria aprendizagem como
aluno e o papel que ele atribui à leitura e escrita para ensinar Física, como futuro
professor?
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Qual tipo de leitura e de escrita estudantes de licenciatura consideram
importante? Qual concepção subjacente de leitura e/ou escrita está presente na
sua formação inicial?
Refletindo sobre a importância de um espaço de formação e da vivência do
aluno do Ensino Superior, futuro professor, com as práticas de leitura e escrita, foi
elaborado e aplicado um questionário a oito estudantes de um curso de
Licenciatura em Física, no contexto de uma disciplina de Metodologia de Ensino,
visando compreender as percepções desses sujeitos sobre a temática.
A LEITURA E A ESCRITA DE TEXTOS NO ENSINO DE FÍSICA
Diversos estudos têm discutido a importância da leitura e escrita de textos de
diferentes gêneros no ensino e aprendizagem de física na Educação Básica. Na
sequência serão apresentados resultados obtidos por diferentes pesquisadores da
área em estudos desenvolvidos na Educação Básica e estudos na Formação inicial
e na prática de Professores em Ciências da Natureza.
LEITURA E ESCRITA NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Em relação à Leitura de textos de diversos gêneros no ensino de física, Silva
(1997) analisou em sua dissertação os modos de leitura presentes em aulas dessa
disciplina, através da observação de aulas e de entrevistas com os professores. Seu
estudo mostra que muitas vezes a leitura estava limitada à utilização de textos
associados a enunciados de exercícios quantitativos propostos no livro didático,
fato que, mesmo alguns anos depois e em outras escolas, ainda descreve a
realidade de muitas aulas dessa disciplina. O pesquisador, naquela ocasião,
realizou intervenções nos contextos de leitura das aulas observadas, mostrando
algumas possibilidades que os diferentes modos de leitura trazem para o ensino.
O autor ressalta que a inserção de diferentes textos em sala de aula, de forma a
envolver o aluno e tornar possível uma real aprendizagem por meio dela, não é
algo simples e exige reflexão por parte dos educadores.
Outros trabalhos (ALMEIDA; RICON, 1993; ALMEIDA; SILVA; BABICHAK, 1999;
ALMEIDA; SILVA; MACHADO, 2001) também analisaram e propuseram atividades
de leitura em sala de aula defendendo principalmente sua importância para o
desenvolvimento de conceitos físicos e o estabelecimento do diálogo da física com
outras áreas do conhecimento, ou seja, o incentivo à leitura de textos pode ser
mais que um meio de motivação, mas também meio de estruturar aulas e de
desenvolver habilidades almejadas pela escola.
Almeida, Silva e Babichak (1999), por exemplo, realizaram um estudo sobre
alguns aspectos da interação escolar de estudantes do Ensino Médio, focando em
seus modos de leitura e argumentação, usando para isso uma atividade
relacionada com a física clássica. Durante a pesquisa propuseram aos alunos
questões bastante abertas sobre um texto do livro didático envolvendo conceitos
científicos. Os pesquisadores perceberam que através da escrita os alunos se
manifestaram muito mais do que usualmente. Apesar desse resultado, a análise
das respostas indicou dificuldades dos estudantes na compreensão e produção de
sentidos para a leitura. Este estudo evidenciou que a compreensão de textos que
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envolvem conceitos científicos nem sempre é óbvia ou simples, assim é preciso
trabalhar esse tipo de leitura na escola.
Com relação à Escrita, percebeu-se na literatura da área que ela é mais
explorada no Ensino Fundamental, na disciplina ciências (ALMEIDA, 2005;
OLIVEIRA, 2001; SOUZA; GIRALDI, 2010). Estes trabalhos evidenciam que a escrita,
quando pensada para além de uma ferramenta de reprodução de conteúdos, pode
ser meio de produção de sentidos e estímulo à criatividade e ao raciocínio
relacionado aos conhecimentos científicos.
Os trabalhos que estudam a escrita de textos no Ensino Médio o menos
frequentes, se comparados aos que estudam a leitura. Charret e Krapas (2008)
realizaram um estudo no qual analisam redações de estudantes do ano do
Ensino Médio sobre as Leis de Newton, tendo adotado as teorias de Bakhtin como
referencial teórico. Uma atividade foi proposta conjuntamente pelos professores
de Física e de Redação. A análise dos textos produzidos foi realizada do ponto de
vista linguístico pela professora de redação e do ponto de vista científico pela
professora de física. Para as pesquisadoras a atividade se constituiu em uma
maneira de conhecer o discurso do aluno, permitindo ligações entre a linguagem
da física escolar e a linguagem cotidiana, e a partir daí o estabelecimento de um
diálogo visando à construção do conhecimento. Esse trabalho evidenciou uma
possibilidade de usar o processo de escrita nas aulas de física, para além da cópia
de informações, e que pode trazer resultados positivos para a aprendizagem de
conceitos físicos.
Apesar dos diversos estudos publicados evidenciarem possibilidades e
potencialidades do uso da leitura e a escrita de textos no ensino e na aprendizagem
de física, muitas vezes os professores se deparam com dificuldades para propor e
utilizar esses processos, sejam pelas condições concretas de trabalho na escola,
que não concedem tempo e espaço necessários para a reflexão, ou pela cultura
das aulas dessa disciplina, focadas nos problemas físicos tradicionais, entre outros
motivos. Neste contexto, na sequência serão apresentados estudos desenvolvidos
na Formação Inicial e na prática de Professores de Ciências da Natureza.
LEITURA E ESCRITA NA FORMAÇÃO INICIAL E NA PRÁTICA DE PROFESSORES
Segundo a teoria de Vigotski, o contexto cultural é uma das principais
influências no desenvolvimento humano e a interação social dentro deste contexto
cultural possibilita criar formas de agir no mundo. Acredita-se assim que a forma
de utilização da leitura e da escrita na aprendizagem de física durante a formação
inicial dos professores possa influenciar no modo como eles, posteriormente, as
utilizarão em sala de aula no Ensino Médio.
A maioria dos trabalhos que investiga a leitura e escrita na formação inicial e
na prática de professores realiza discussões sobre os sentidos atribuídos pelos
docentes para a leitura de textos, sendo a escrita ainda pouco estudada. A forma
de utilização dessas práticas por esses professores na sua própria aprendizagem
de física, enquanto alunos de graduação, também é pouco explorada na literatura.
Os trabalhos encontrados fazem inserções de leituras em algumas disciplinas da
graduação e algumas análises da relação que os alunos estabeleceram com essas
leituras mais pontuais.
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Por exemplo, alguns trabalhos, através de investigações com estudantes de
graduação, investigaram a possibilidade de utilização da leitura de textos no curso
de Licenciatura em Física (ALMEIDA; SORPRESO, 2010; PEREIRA; OSTERMANN,
2010; ZANOTELLO; ALMEIDA, 2013). Estes estudos defendem que a leitura de
textos durante a formação do professor auxilia a fortalecer os conhecimentos,
além de motivar a aprendizagem e o hábito de procurar textos e leituras para além
do livro didático, futuramente, enquanto professores da Educação Básica.
O trabalho de Zanotello e Almeida (2013) alerta que também no Ensino
Superior “o uso da divulgação científica precisa ser planejado, considerando-se os
objetivos do ensino, os conteúdos a serem cumpridos e a carga horária da
disciplina” (p.129). Assim, usar a leitura e a escrita de textos tanto na Educação
Básica quanto no Ensino Superior exige planejamento e reflexão sobre esses
processos.
Andrade e Martins (2004), por sua vez, analisaram o discurso de professores
de Física, Química e Biologia da Educação Básica sobre a leitura de textos em suas
aulas, tendo como referencial teórico a Análise do Discurso (AD) de linha francesa.
Segundo o estudo,
A imagem que a maioria dos professores possui deles mesmos é a de um
mediador que através da interação irá estabelecer a relação entre textos e
alunos. No entanto, esses mesmos professores não se vêem como
formadores de leitores. Apesar de valorizarem a utilização de textos com seus
alunos, os professores descrevem grandes dificuldades que estes possuem
com a leitura e a interpretação e os consideram como não-leitores
(ANDRADE; MARTINS, 2004, p. 15).
Os resultados indicaram que, segundo os professores participantes, na
formação inicial não espaço de reflexão sobre o papel da leitura no ensino de
Ciências, fato que reflete nas suas dificuldades para a inserção deste tipo de
atividade em suas aulas.
O trabalho desenvolvido por Assis e Carvalho (2008) analisou a postura de dois
professores de física na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e no Ensino
Fundamental, em atividades que envolviam a leitura de textos paradidáticos. Os
autores defenderam que muitas vezes a postura do professor não favorece a
aprendizagem significativa. Esse estudo mostrou a insegurança de alguns
professores na adoção da leitura de textos em sala de aula, o que fez com que
frequentemente permanecessem na superficialidade dos conceitos, não
viabilizando a articulação necessária para a aprendizagem. É preciso considerar
que esses problemas são mais profundos e têm relação com a formação dos
professores e com a visão sobre o que é ensinar física.
Leite (2008) investigou os sentidos e concepções dos professores de física
quando realizam atividades de leitura de textos em suas aulas, discutindo as
possibilidades e dificuldades por eles apontadas. Os professores que fizeram parte
da investigação responderam a um questionário, desenvolveram uma atividade
em sala de aula utilizando um texto indicado pelo pesquisador e finalmente,
participaram de uma entrevista. Alguns professores destacaram a necessidade de
receberem orientações sobre como deveriam ser realizadas as atividades de
leitura em sala, pois eles enfrentam dificuldades para desenvolver atividades desta
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natureza, tanto pelas dificuldades dos alunos quanto pela necessidade de um
“método adequado”.
Finalmente, Almeida (2014) discute a possibilidade de deslocamento no
imaginário de licenciandos em física sobre o funcionamento de textos de
divulgação científica no Ensino Médio por meio de mediações realizadas em uma
disciplina pedagógica de um curso de física. Ao analisar seus discursos, depois das
mediações, o estudo conclui que
Determinadas posições de alguns licenciandos, que cursavam a disciplina na
qual o estudo foi realizado, não se relacionavam às mediações que havíamos
desenvolvido nas condições de produção que haviam sido programadas. Para
que isso ocorresse seriam necessárias outras mediações, ou é possível,
inclusive, que não viesse a ocorrer (ALMEIDA, 2014, p.185).
Segundo Almeida (2014) o fato dos professores trabalharem efetivamente
com textos de divulgação científica depende também das condições de produção
que tiverem para preparar suas aulas (p.185).
Carvalho e Gil Pérez (2001) ao discutir a formação inicial de professores
colocaram que as pesquisas nesta área indicavam que um dos obstáculos para o
professor adotar novas práticas são as ideias docentes de senso comum. Segundo
esses autores,
Essas pesquisas (Gené e Gil, 1987; Hewson e Hewson, 1988; Abib, 1997;
Adams e Krockover, 1997; Beach e Pearson, 1988) mostram que os
professores têm idéias, atitudes e comportamentos sobre o ensino, formados
durante o período em que foram alunos, adquiridos de forma não-reflexiva,
como algo natural, óbvio, escapando, assim, à crítica e se transformando
assim em um verdadeiro obstáculo para uma mudança didática (CARVALHO;
GIL PÉREZ, 2001, p. 111).
Talvez isso também ocorra com os processos de leitura e escrita de textos. Por
falta de um espaço para a reflexão sobre a temática, eles são usados sem uma
crítica, passando despercebidos quanto à sua potencialidade para o ensino-
aprendizagem. É preciso refletir para buscar formas de utilização que explorem o
potencial desses recursos não somente como uma ferramenta, mas como um meio
de construção de conhecimentos e aprendizagem.
As dificuldades com as quais professores de física se deparam ao utilizar a
leitura de textos enfatizam a necessidade de repensar as condições das aulas da
disciplina e dar atenção aos momentos de formação, tanto inicial quanto
continuada, que tratam da temática. O primeiro passo pode ser compreender a
percepção dos estudantes de licenciatura sobre a leitura e a escrita de textos de
modo a ter um ponto de partida para essas discussões e buscar caminhos que
possibilitem superar possíveis obstáculos enfrentados por esses futuros
professores, para “inovar” no modo de utilização dessas práticas em suas aulas.
REFERENCIAL TEÓRICO: O QUE SE ENTENDE POR LER E ESCREVER
Vigotski realizou estudos para entender a inter-relação entre o pensamento e
a linguagem, contribuindo também para a compreensão do desenvolvimento das
habilidades de leitura e escrita. Para ele, entender o desenvolvimento intelectual
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dos indivíduos requer compreender essa inter-relação, pois a linguagem é mais do
que a expressão do pensamento, é por meio dela que ele é formado.
Assim como no reino animal, nos seres humanos “o pensamento e a palavra
não são ligados por um elo primário” (VIGOTSKI 2008, p.149), ou seja, pensamento
e fala têm raízes distintas e suas trajetórias de desenvolvimento não são paralelas.
Assim, no decorrer da evolução humana, em certo ponto da trajetória de
desenvolvimento, pensamento e fala se encontram, surgindo o pensamento verbal
e a fala racional ou intelectual.
Ao propor a expressão dos conhecimentos pela escrita, é preciso considerar
que a palavra na fala interior é uma função por si própria e está repleta de sentido,
o que torna a sua expressão na fala exterior um ato complexo. Para Vigotski, na
fala interior “uma única palavra está tão saturada de sentido, que seriam
necessárias muitas palavras para explicá-las na fala exterior” (VIGOTSKI, 2008, p.
183), ou seja, essa transição, da fala interior para a exterior, não é um simples
processo de tradução entre as linguagens, mas exige a criação de suportes
expressivos e situacionais.
A escrita exige que a atividade da fala assuma formas complexas, pois estão
ausentes os suportes situacionais e expressivos do diálogo face a face, gerando a
necessidade dos rascunhos que refletem o processo mental. Segundo Vigotski,
O planejamento tem um papel importante na escrita, mesmo quando não
fazemos um verdadeiro rascunho. Em geral, dizemos a nós mesmos o que
vamos escrever, o que constitui um rascunho, embora apenas em
pensamento. [...] esse rascunho mental é uma fala interior (VIGOTSKI, 2008,
p.179/180).
O incentivo à escrita como meio de produção de conhecimentos nas aulas de
física pode ser importante no estímulo e desenvolvimento desse processo mental
de elaboração de rascunhos, por meio do qual o pensamento se torna mais
concreto. A escrita como uma atividade intelectual pode viabilizar não só ao
professor certo acompanhamento da aprendizagem, por a escrita ser uma forma
de expressão, mas principalmente possibilita ao aluno tornar-se mais consciente
sobre o seu ato de pensamento, pela estruturação das suas ideias e de conceitos.
É importante considerar que “o pensamento não é simplesmente expresso por
palavras; é por meio delas que ele passa a existir” (VIGOTSKI, 2008, p.157).
O processo de leitura de textos escritos também não é simples, pois esses
podem adquirir vários sentidos dependendo de quem os produz ou os interpreta.
“Assim como uma frase pode expressar vários pensamentos, um pensamento
pode ser expresso por meio de várias frases(VIGOTSKI, 2008, p.186), isso porque
a escrita é um processo dinâmico e as palavras assumem sentidos a partir da
interação do leitor com o texto.
Ao usar a leitura e a escrita no ensino de física é preciso refletir sobre os
diferentes sentidos que atividades que envolvem esses processos podem
proporcionar aos estudantes.
Nascimento (2013), pautado na teoria de Vigotski, afirma que “escrever e ler,
cada um a seu modo, mobiliza a percepção dos sujeitos autores e leitores” (p. 450),
pois o domínio e uso dessas práticas proporcionam uma reorganização do
pensamento. Nesse sentido, a leitura e a escrita nas aulas de física podem ser
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ferramentas de aprendizagem na construção do conhecimento pelo estudante,
além da possibilidade de, por meio dessas práticas como forma de produção,
incentivar a imaginação e criatividade dos estudantes no estabelecimento e
expressão de relações de sentidos particulares.
Para Vigotski, a aprendizagem de conceitos e desenvolvimento da
comunicação por meio da leitura e da escrita ocorre pelo contato e necessidade
de uso em situações reais. Para ele, a criança não aprende a língua materna através
do alfabeto e das normas da escrita, mas na sua “usualidade” (RIOS, 2006). O signo
é um instrumento usado na interação social entre os homens e, portanto,
aprendido no meio cultural em situações de comunicação verbal.
Vigotski (2008) propõe que um conceito é o significado de uma palavra, e seu
desenvolvimento, mais do que um simples hábito mental, é na verdade um ato
real e complexo de pensamento que pressupõe o amadurecimento de muitas
funções intelectuais como a abstração, atenção deliberada, memória lógica e
capacidade de comparar e diferenciar (p.104).
É importante considerar ainda que a fala possui motivos paralelos e “uma
compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando
entendemos sua base afetivo-volitiva (VIGOTSKI, 2008, p. 187), ou seja, a sua
motivação, que advêm de seus interesses, necessidades, desejos e emoções. Ao
analisar a fala ou a escrita do outro é preciso considerar que fatores subjetivos e
sócio-históricos influenciam no seu pensamento e forma de expressão.
METODOLOGIA
Com o intuito de compreender a importância que estudantes de um curso de
Licenciatura em Física atribuem à leitura e escrita na sua formação inicial, bem
como a importância e as dificuldades para seu uso no ensino de física na Educação
Básica, foi elaborado um questionário, que foi respondido por oito estudantes de
uma universidade pública, no contexto da disciplina Metodologia do Ensino de
Física, que compõe o 4º período do curso, de um total de nove períodos.
Tal disciplina busca, dentre diversos objetivos, discutir questões referentes ao
papel das diferentes linguagens no ensino de física. O questionário foi respondido
antes de serem realizadas discussões sobre a leitura e a escrita de textos no ensino.
No contexto da disciplina, o objetivo do questionário utilizado era que os
licenciandos pudessem, previamente às discussões que se seguiriam nas próximas
aulas, refletir sobre como a leitura e a escrita se relacionam com suas próprias
formas de aprender física no Ensino Superior, e as possibilidades para o ensino e
aprendizagem de física no Ensino Médio.
Antes que os estudantes respondessem o questionário, foi esclarecido que tal
instrumento tratava-se de uma estratégia no âmbito da disciplina, mas que havia
também a intenção de utilizá-lo para fins de pesquisa. Caso o estudante permitisse
que suas respostas fossem utilizadas no âmbito da pesquisa, solicitou-se que
assinasse um Termo de Consentimento autorizando que suas respostas fossem
utilizadas com tal fim. Caso ele não permitisse, suas respostas seriam utilizadas
apenas no âmbito da disciplina, sem que isso acarretasse quaisquer interferências